Com ciência negra – Empatia

17/12/2018 09:09

A Universidade é um dos espaços mais democráticos que existem nos dias atuais. Porta para a formação de profissionais capacitados, esses espaços são principalmente áreas com capacidade para discutir todos os assuntos de interesse social, desde os comuns no cotidiano até os mais segmentados.

De origem baiana, Karine de Souza Silva é um retrato dessa função. Filha de um casamento interracial, Karine é formada em Direito, com mestrado e doutorado na área de Direito Internacional, campo no qual trabalha até hoje. “Venho de uma família multirracial, na verdade. Assim como alguns outros professores negros daqui e também como uma legítima baiana.”

A Bahia, é no Brasil, um dos estados com maior índice de miscigenação, estando ainda na primeira colocação entre os 27 estados com maior taxa de população negra no país. Mesmo com esse panorama, apenas 2% dos professores da Universidade Federal da Bahia são negros, segundo estudo feito pelo Coletivo Luiza Barros.

Seu ingresso e permanência na Universidade foram difíceis, conta Karine. Na época, o sistema de cotas não existia, mas foi beneficiária de uma  bolsa de estudos o que foi fundamental para sua permanência no ambiente universitário. Hoje, ela atua no departamento de Economia e Relações Internacionais, e é titular de duas Cátedras internacionais, a “Jean Monnet” da União Europeia, e a “Sérgio Viera de Mello” do ACNUR ONU.

Atualmente, é também coordenadora do EIRENÈ “Centro de Pesquisas e Práticas Pós-coloniais e Decoloniais aplicadas às Relações Internacionais e ao Direito Internacional”, e do Projeto de Extensão “Núcleo de Apoio a Imigrantes e Refugiados”, por meio do qual se realizam diversas atividades relacionadas à promoção de acessibilidade documental e laboral para imigrantes refugiados que chegam na região da grande Florianópolis.

O Núcleo já atendeu mais de 40 mil imigrantes e refugiados de 70 nacionalidades, mas Karine Silva reconhece que, no entanto, os povos negros que são maioria, são, reconhecidamente, os mais vulneráveis. “Os imigrantes negros são hiper-vulnerabilizados devido, sobretudo, ao componente racial e, por isso, é necessário que haja uma maior atenção às demandas destes povos. O Brasil tem uma dívida histórica com as nações africanas e o projeto de extensão é um meio de promover encontros não-hierarquizados com diversas etnias, e de ativar o potencial de transformação social que é próprio da universisade”.

Como única professora negra do Departamento de Relações Internacionais, ela sabe que sua presença representa muito para os/as alunos(as) negros(a)s e cotistas. “Sei que represento esperança e resistência. Ouço muitos relatos de alunos que dizem o quão importante é ter uma professora negra no quadro”. Apesar disso, também acredita que ser a única negra no corpo docente significa ser cobrada e julgada com mais rigidez pela comunidade acadêmica.

Apesar dessas dificuldades, Karine reconhece que também vêm de um lugar de privilégio em relação a muitas outras pessoas negras no Brasil, em função de sua origem. “Eu venho de uma família interracial da parte da minha mãe, branca e indígena. Eu tenho certeza que isso facilitou muito a minha vida porque as famílias brancas no Brasil, embora sendo pobre, não enfretam as mesmas dificuldades que as famílias  negras”.

Santa Catarina também é negra

No estado de Santa Catarina mais da metade da população é branca. Segundo dados do último censo IBGE de 2010, 84% da população se considera branca o que certamente aponta para uma desigualdade ainda mais gritante do que em outros estados do país. Mas é importante lembrar que Santa Catarina é, na região sul do Brasil, o lugar onde a colonização européia ainda é mais presente.

Em 2016, ocorreu no centro de Florianópolis a primeira Marcha da Negritude. O evento foi um marco importante na cidade pois, sabendo que a população branca é maioria, em todos os âmbitos da sociedade, as pessoas negras ainda são excluídas. Joana Célia dos Passos, a primeira entrevistada dessa série de reportagens, esteve presente na marcha. Clique para saber mais.

Há muitos anos residente na cidade de Florianópolis, Karine de Souza Silva considera que em Santa Catarina os conflitos raciais são menos acirrados que na Bahia, onde a população negra é majoritária e a maior vítima dos processos de exclusão. “SC para mim é outro país que fala português com suas idiossincrasias, […] mas na Bahia as tensões são muito mais aparentes haja vista que os brancos, embora sejam a minoria, são os mais privilegiados e, por isso, tensionam ao máximo para se materem no topo das hierarquias políticos-sociais. Para você ter uma ideia, o percentual de professores negros na Universidade Federal da Bahia é praticamente o mesmo da UFSC. É muito fácil entender porque na Bahia a herança da escravidão foi muito mais contundente do que em outros lugares.”

Como parte desse grupo seleto de pessoas, Karine se preocupa em trazer para seus alunos referências negras e contribuir para a inclusão de ainda mais pessoas pertencentes à raça negra na universidade.

O principal objetivo dessa série de reportagens foi apresentar, não só à comunidade acadêmica, mas à comunidade em geral, quantos trabalhos de excelência estão sendo produzidos a partir de uma perspectiva um pouco mais particular. Visualizando pessoas que fazem parte de um grupo ainda seleto nos cursos de graduação em todo o país apesar de pertencerem à maioria da população. Pessoas negras que são protagonistas de suas próprias histórias, da história do país e também do ensino, pesquisa e extensão na universidade.

A luta contra o racismo é antirracista. Não compactue com ações discriminatórias.

 

Leticia Silva 

Divulgação Propesq

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