Com ciência negra – Jornalismo negro

05/12/2018 15:08

Trabalhar na televisão, nas redações de jornais, revistas ou através da ferramenta do século XXI, a internet, pode ser algumas das possibilidades de quem se forma em jornalismo. Existe ainda, a chance de estar nas rádios ou seguir carreira acadêmica, que é parte essencial da formação do profissional que resolve se graduar mesmo sabendo que o diploma não é mais obrigatório para exercer o trabalho.

A comunicação, assim como a educação e a saúde, é alicerce fundamental para a vida do ser humano e é inegável o papel do jornalismo para a sociedade mesmo enfrentando crises de funcionamento. As fake news, por exemplo, têm sido um dos argumentos mais utilizados para tentar descredibilizar sua função social, de informar aos cidadãos fatos do cotidiano.

No Brasil, todos os anos, mais de sete mil jornalistas são formados. Mas assim como na grande maioria dos cursos superiores, nem metade dessas pessoas faz parte da população negra do país. Na UFSC, esse cenário é facilmente percebido e extremamente contrastante. Até 2017, por exemplo, não havia professores ou professoras negras no curso de Jornalismo até Leslie Sedrez Chaves ocupar esse lugar.

Assim como Joana Célia dos Passos (primeira personagem dessa série), Leslie é filha de um casamento inter-racial entre mãe branca e pai negro. Durante toda sua convivência familiar, no entanto, a cor da sua pele não significava nada de diferente. “Eu tenho pessoas de todas as cores na minha família. As pessoas são diferentes e pronto, isso não era uma questão até eu entrar na escola”.

Aos seis anos, no ensino primário, sofreu seu primeiro impacto com o racismo. No interior do estado de São Paulo, na cidade de Itapetininga, era a única aluna negra em toda escola e ouvia de seus/suas colegas que não poderiam brincar juntos (as), pois se sujariam caso se encostassem. Por ser desde muito pequena interessada nos estudos, ao perceber um comportamento incomum, a mãe de Leslie sabia que algo estava errado.

“E aí meu pai conseguiu, conversando, descobrir o que houve e eu respondi que queria voltar pra Bahia porque lá todas as pessoas eram iguais”.

No Brasil, 54,5% das crianças são negras ou indígenas, segundo publicação da UNICEF de 2010. O número, no entanto, não representa maioria de crianças negras e indígenas nas escolas e um dos motivos é o abismo de desigualdade existente no país.

Leslie conta que, desde suas primeiras vivências e percepções como mulher negra com o racismo, sua própria existência nunca foi a mesma. Na Universidade em que se graduou em Jornalismo só havia mais uma pessoa negra e graduanda de um curso que não estava relacionado à área de comunicação. Além disso, era frequentemente chamada para fazer propagandas da instituição a fim de representar uma diversidade racial que não existia.

Durante todas as etapas de sua trajetória, tanto acadêmica quanto profissional, ela se viu sendo a única pessoa negra do local em que estava, seja ele qual fosse.  Contou ainda, que essa insatisfação pela falta de representatividade, a fez decidir os temas de pesquisa para trabalho de conclusão de curso de graduação, mestrado e doutorado.

“Na época que eu estava fazendo o meu TCC o jornalista Heraldo Pereira entrou para o rodízio de apresentadores do Jornal Nacional. E isso na época causou um grande furor, as pessoas comentaram muito”, tendo em vista que isso nunca havia acontecido na Rede Globo, a emissora que concentra o maior número de telespectadores no país.

Ao procurar orientação para seu trabalho, mais um obstáculo foi atingido: todos os seus professores não se julgavam preparados e/ou não queriam enfrentar o desafio de pesquisar sobre o tema. “Isso não me fez desistir. Tive um professor corajoso o suficiente para dizer que não entendia nada sobre o assunto, mas descobriria comigo”. Depois de sua monografia desenvolvida com o objetivo de pensar sobre o tema, em todas as oportunidades, optou por estudar as relações étnico-raciais e as maneiras como a mídia poderia colaborar para a construção de um cenário menos desigual para mais da metade da população.

Como primeira professora negra no curso de jornalismo da UFSC, Leslie considera que representatividade é necessária em todos os níveis e âmbitos da sociedade. “Representatividade é referência. As pessoas precisam ver que é possível que elas também estejam ali”. Reforça ainda a importância das pessoas ocuparem os espaços que lhe são de direito, sendo elas brancas, negras, indígenas, mulheres, parte da comunidade LGBT ou qualquer outro grupo. Todas as pessoas têm direito de escolha sobre suas próprias vidas.

A luta contra o racismo é antirracista. Não compactue com ações discriminatórias.

 

Leticia Silva 

Divulgação Propesq

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