Com ciência negra

27/11/2018 10:32

A chegada de pessoas provindas do continente africano no Brasil, assim como em muitos outros países, não se deu de forma digna. Trazidas em grandes embarcações, essas pessoas não tinham direito às necessidades básicas para sobreviver, por isso milhares delas não conseguiam chegar vivas ao país recém-explorado pela colonização europeia.

Assim como os povos indígenas que já habitavam as regiões, os homens e as mulheres escravizados eram considerados produtos com a única intenção de satisfazer as vontades de seus senhorios. A abolição da escravatura, porém, não trouxe a liberdade total para esse povo. Sem as mesmas oportunidades, a comunidade negra se viu obrigada a submeter-se a um estilo de vida precário, evidenciando a desigualdade racial.

Segundo o IBGE, 46,7% de toda a população do Brasil se considera parda e 8,2% preta. O aumento de mais de 6% em relação à pesquisa realizada no ano de 2012, enfatiza o cenário onde mais da metade dos cidadãos brasileiros estão separados por um contraste estruturado na sociedade.

Um  exemplo dessa desigualdade é observar que, no panorama com mais de quatro mil programas de pós-graduação no país, apenas 216 mulheres fazem parte do corpo docente pertencente à etnia negra. Em outro levantamento, feito pela professora Joana Célia dos Passos, os dados apontam que entre os cinco campus da Universidade Federal de Santa Catarina existem cerca de 40 pessoas negras dentre os mais de mil professores.

Catarinense do interior do estado e oitava filha de um casamento interracial (entre mãe branca indígena e pai negro), Joana Célia dos Passos faz parte desse grupo seleto de pesquisadoras(es) negras(os) da UFSC. Professora do Programa de Pós Graduação em Educação e do Departamento de Educação no CED, Joana tem 28 anos de carreira como professora e 20 anos como ativista do movimento negro.

O Núcleo de Estudos Negros de Florianópolis, grupo ativista do qual faz parte, existe há mais de 30 anos e trabalha com a produção de conhecimentos em educação, direitos humanos e na formulação de políticas públicas para a população negra. “Eu já fazia isso, de certo modo, como professora didática”, conta Joana sobre o motivo do seu ingresso ao grupo.

Sua trajetória acadêmica revela diversos estudos baseados nas relações étnico-raciais. Em uma de suas pesquisas, encerrada no ano de 2015, realizou o levantamento de pesquisadoras negras membros da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros e Negras (ABNP) e os campos de produção acadêmica delas. A pesquisa que atualmente coordena tem o principal objetivo de construir e avaliar as políticas de ações afirmativas com foco nos alunos egressos da UFSC, da Universidade Federal do Paraná e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, considerando a continuidade acadêmica e a inserção no mercado de trabalho.

Para ela, a universidade nunca foi tão plural. “Nós vivemos um tempo, onde transitam trabalhadoras(es) com diferentes corpos, com diferentes pertencimentos étnico-raciais, com diferentes identidades de gênero”. Mas aponta que esse panorama não é  reconhecido pela academia, pois, apesar da presença dessas pessoas, ainda é pouco provável encontrá-las nas referências bibliográficas, nas produções de conhecimento, currículos e conjunto de atividades de ensino, pesquisa e extensão.

Além disso, Joana também é coordenadora do grupo ALTERITAS – Diferença, arte e educação, situado no CED, que tem como objetivo realizar ensino-pesquisa e extensão temáticas como: relações raciais, racismo, educação antirracista, ações afirmativas, relações de gênero, arte, memória e patrimônio afro-brasileiro. “A presença do negro na universidade é fundamental para problematizar o lugar da branquitude, porque eles já ocupam esses espaços”.

A luta contra o racismo é antirracista. Não compactue com ações discriminatórias.

 

Leticia Silva 

Divulgação Propesq 

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